Gauchês para capixabas

Zona rural de Alegrete, Rio Grande do Sul. Estrada de chão esburacada, quatro amigas em um carrinho que aguentava firme o tranco da viagem desde o Espírito Santo. Depois de uma volta na cidade, retornam ao sítio onde estavam hospedadas com os outros amigos que as acompanhavam nessa aventura gaúcha.  A estrada vazia, só o céu azul de dezembro e os campos verdes dos pampas a perder de vista. Uma ou outra porteira, uns cachorros fingindo de bravos.  Vão conversando estrada afora e admirando a paisagem.

Relembram a situação que acabaram de passar na farmácia, quando perguntaram o preço do produto: “Custa dez com trinta”, respondeu a atendente. Como assim, “com trinta”? Com trinta por cento de desconto? Ah, dez reais e trinta centavos!  Riem e acham graça da maneira de dizer dos gaúchos.

Lá de longe avistam outro carro vindo, cada vez mais devagar. O motorista abaixa o vidro e faz sinal que quer falar alguma coisa. As amigas param, fazem silêncio e ouvem atentas; o gaúcho então pergunta:  “Os homens tão atacando lá nos pinheiros?”.  Mil pensamentos cruzam simultaneamente as quatro cabecinhas: Homens atacando? Assaltantes? Será uma gangue? Eles se escondem nos pinheiros? Onde é que passamos por pinheiros? Será que estamos tão desatentas? Meu Deus, passamos por um perigo e nem notamos!

No silêncio desconcertante que se segue, o homem no outro carro percebe a confusão estampada no rosto delas.  Não é preciso dizer muito para perceber que são turistas, e refaz a sua frase, traduzindo seu gauchês: “Os policiais estão parando ali no trevo de Pinheiros?”

Suspiros aliviados, seguidos por risadas intermináveis.

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Doce e saboroso Uruguai

Hoje, depois de algumas fotos de guloseimas enviadas por amigos, lembrei-me do cheiro doce das padarias uruguaias. Nas vésperas do ano novo passado viajei com minha amiga Magna a Montevidéu, e carregamos de lá ótimas lembranças, principalmente olfativas e gustativas.

Quando chegamos ao centro histórico de Montevidéu, às 7 da manhã, o arrastar das mesas, das vassouras e das portas era quase um silêncio antes da chegada barulhenta dos turistas. Um cheiro delicioso impregnava as ruas; descobrimos que as poucas portas completamente abertas naquela hora eram, é claro, as padarias. Os nossos narizes acostumados a inspirar o cheiro quente e salgado de pão francês depararam-se, no entanto, com um cheiro inusitadamente doce.

Seguimos curiosas aquele cheiro doce porta adentro, e encontramos uma infinidade de tipos de pãezinhos e biscoitos frescos, recheados de doce de leite, goiabada, chocolate e creme. Compramos alguns aleatoriamente: este, este, este e este; apontávamos para a moça atenciosa do balcão. Saímos felizes com a nossa sacola de padaria e sentamo-nos bem tranquilas em uma praça para saborear as nossas escolhas e descansar da viagem.

Os dias que se seguiram foram repletos de descobertas culinárias; somaram-se aos pãezinhos doces as suculentas carnes, os fartos chivitos, os alfajores variados, os sorvetes artesanais em Colônia del Sacramento. Desde aquele cheiro doce na nossa chegada, já tínhamos percebido que a nossa viagem pelo Uruguai seria deliciosa.

Pimenta e Pirão

No alojamento de estudantes onde morei na França a cozinha era comunitária e, consequentemente, o jantar também. Nunca combinávamos o que cada um iria preparar, mas quem quer que estivesse na cozinha comia junto, um experimentando a comida do outro.

A minha vizinha do Benin, Betina, adorava uma pimenta, quase ninguém conseguia comer a comida dela. Ela se divertia quando oferecia, avisando que estava apimentado, e a pessoa aceitava dizendo que gostava de comida picante mas fazia cara de desespero quando colocava a comida na boca. Até que eu provei e fiz cara de que estava muito bom – já sou chegada numa pimenta mesmo – e ela se surpreendeu por uma estrangeira gostar tanto da sua comida. Quando ela estava na cozinha o ar se enchia de risos e de cheiros. Ela e as amigas chegavam da faculdade, tiravam os casacos, gorros e écharpes franceses, amarravam panos coloridos na cintura transformando-os em saias, às vezes também na cabeça, como um turbante, e iam preparar o jantar. Quando encontrava com elas na cozinha eu me sentia na Bahia.

Descobri que, apesar de ter sido uma colônia francesa, Benin, na costa ocidental da África, era uma lugar bastante visitado pelos portugueses por causa de seu importante porto de onde saíram muitos navios negreiros para o Brasil. Muitos escravos saíram do porto de Benin diretamente para o porto de Salvador e, é claro,  muitos morreram no caminho. Talvez minha tatatataravó foi uma das que sobreviveram e trouxeram o tempero de lá pra cá. Assim, eu me senti praticamente uma prima distante da Betina.

Um dia ela me chamou pra ajudá-la a cozinhar e estava com um produto na mão. Perguntei o que era aquilo, ela me respondeu “farinha de mandioca, você conhece?”. Respondi então “Claro que sim! A gente usa muito no Brasil. Eu ainda não tinha visto pra comprar aqui, onde você achou?”. “Aqui não acha mesmo, eu trouxe de casa”, ela me disse. Então perguntei: “E o que você vai fazer com isso?” Para a minha enorme surpresa ela disse “Eu vou fazer um prato que a gente come muito lá no Benin; eu cozinho a carne com bastante caldo e depois cozinho a farinha no caldo, misturando, até ficar um creme. A gente chama de piron”. Que alegria comer um pirão com arroz e pimenta, igualzinho ao de casa! E que interessante saber que uma das minhas comidas preferidas fala muito sobre a minha história e me conecta com outras pessoas, como a minha nova amiga do Benin. Quando penso que vou aprender algo novo sobre o outro, acabo descobrindo mais sobre mim mesma.

O encantamento da neve

Para nós, habitantes dos trópicos, ver neve pela primeira vez é encantador e inesquecível. Crescemos com uma forte influência cultural dos povos do norte do Equador exibindo-nos a cada fim de ano a magia da neve. Nós compramos a ideia, e ficamos ansiosos para um dia finalmente vê-la ao vivo e tocá-la, como nos filmes, ou como naquela capa do cartão de natal.

Uma grande amiga foi à Espanha neste último inverno visitar seu filho que fazia um intercâmbio por lá. Os dois estavam conversando tranquilamente quando ela viu umas “coisinhas” brancas no cabelo dele. Muito cuidadosa e preocupada como é, ela logo perguntou: “Meu filho, você está com caspa? O que é isso no seu cabelo?”. Ele sem entender responde:“Que caspa, mãe?”. Ela insiste: “Isso aí branquinho no seu cabelo”. “Mãe, você não está vendo que começou a nevar?”. Ela achou tanta graça nessa situação que foi a primeira coisa que me contou quando chegou ao Brasil.

A minha mãe também fez questão de visitar-me no inverno quando eu estudei na França, só para realizar o sonho de infância de ver neve. Naquele ano, dezembro se aproximava e nada da neve chegar. Aos poucos fui alertando-a que as previsões não eram muito otimistas, era possível que nem nevasse naquele inverno. Ela chegou em meados de dezembro, eu ainda tinha alguns últimos dias de aula. No primeiro dia, deixei-a em casa descansando e fui pra aula. Quando saí da faculdade, que surpresa: o chão estava coberto de neve! Ao chegar, encontrei minha mãe maravilhada, contando como ficou horas olhando pela janela a neve cair. Parecia uma pintura dos cartões de natal que ela guardava quando pequena. Para ela, o primeiro dia com neve foi muito mais marcante do que a ver Torre Eiffel ou a Mona Lisa.

A minha primeira neve foi encantadoramente mágica, porém em outro continente. Aos dezoito anos estudei por um semestre no Nordeste dos Estados Unidos. Cheguei em pleno inverno com o chão coberto de neve, mas eu queria ver os flocos caindo, o que ainda demorou alguns dias. Numa manhã de janeiro, eu estava na aula de redação quando começou a nevar. A sala de aula tinha uns janelões que emolduravam a neve caindo no pátio e eu fiquei hipnotizada com aquela imagem. Uma aluna ao meu lado perguntou o que eu tanto olhava lá fora. “A neve”, eu falei. Ela continuou olhando sem entender. “É a primeira vez que vejo nevar”, completei. A amiga ao lado dela ouviu e comentou com o menino que estava atrás, que falou com o outro amigo. Um burburinho tomou conta da sala. A professora teve que interromper a aula para perguntar o que estava acontecendo. Um menino gritou la do fundo da sala: “É a primeira vez que a Bartira vê neve!”. A professora olhou curiosa para mim e perguntou se era verdade. Confirmei com a cabeça. Ela então disse animada: “Já que é a sua primeira neve, você tem que ver mais de perto! Vamos todos pra fora ver a neve com a Bartira!”. Saímos, tocamos nos flocos, fizemos guerra de bola de neve; todos estavam muito felizes. Acho que o meu primeiro olhar renovou o encantamento daqueles que já estavam tão acostumados com aquela paisagem.

Feliz ano rápido!

“Nossa, como este ano passou rápido!” Quantas vezes ouvimos e repetimos a mesma frase à medida em que o fim do ano se aproxima? Tenho a impressão de que as pessoas a dizem não apenas como uma constatação, mas também com um certo pesar. Vou fazer então a minha defesa ao ano rápido e, quem sabe, alegrar um pouco este fim de ano um pouco sofrido.

Há uma certa razão para o tempo passar rápido; quando temos algum problema (digamos, algo assim como uma chuva insistente) é bom mesmo que ele corra! Se tudo está muito bem e o tempo lerdar, o que é bom acaba ficando chato, então é melhor também que ele se apresse!

Por outro lado, apesar de termos essa impressão que o tempo correu, pare um minuto para lembrar de algo que você fez em janeiro… você não tem a impressão de ter passado um século desde então? Faça uma lista detalhada de tudo o que você fez neste ano. Detalhada. Não é impressionante que tudo isso coube em um só ano?

Agora é o momento de desacelerarmos e aproveitarmos as festas com a família e os amigos, de dar abraços apertados e longos, de conversar sem olhar o relógio, de dormir sem ligar o despertador. Daqui a pouco retomamos o ritmo do qual tanto reclamamos, mas que nos permite reconstruir o que for necessário, e realizar tanto em tão pouco tempo.

Desejo a todos um feliz ano rápido, cheio de novas experiências, reconstruções e realizações!

Gente daqui, gente de lá.

Sempre que viajamos conhecemos outros viajantes pelo caminho, pessoas com o mesmo espírito de descoberta mas com outros mundos na bagagem. Conversamos, comemos, fotografamos, nos questionamos sobre os sentidos das coisas, contemplamos a beleza da vida e fazemos planos de reencontros no futuro, por aqui ou por lá.

Sempre que viajamos conhecemos pessoas que em meio à sua rotina ousam olhar com carinho para um passageiro e ajudá-lo com uma informação, uma conversa, um conselho; com uma sabedoria de quem é dono imaterial do lugar onde estamos. Conversamos, comemos, fotografamos, nos questionamos sobre o sentido das coisas, contemplamos a beleza da vida e fazemos planos de reencontros no futuro, por aqui ou por lá.

Então começamos a planejar viagens para rever essas pessoas de quem gostamos tanto de conviver mas que estão longe. Só que a cada pessoa querida que revemos, muitas outras novas pessoas se tornam queridas. Cada vez que tentamos reduzir a lista de pessoas a rever, ela aumenta assustadoramente.

Essa constatação estava assombrando o meu pensamento ultimamente. Felizmente, no final da minha estadia em Quebec, dois colegas de trabalho de quando eu morava na Colômbia, há cinco anos, também estavam no Canadá e foram me ver.

Lembramos do nosso trabalho, das pessoas com quem convivíamos, das situações, das festas, das comidas. Rimos, falamos sobre nossos planos, caminhamos sobre a muralha na parte antiga da cidade, deitamos na grama sob o sol, e em um momento de silêncio percebi o quão raro era aquele reencontro.

Depois de três semanas me encantando com as pessoas que conhecia e pensando já com uma certa nostalgia que dificilmente as verei novamente, terminar a viagem com um reencontro me trouxe um grande conforto, e uma pontinha de esperança de rever ainda outras pessoas que ficaram por aqui, ou por lá.  

Memória e expectativas

Esta história começa em março de 2001 com uma menina de 18 anos longe de casa pela primeira vez, maravilhada com um novo mundo mas ao mesmo tempo lidando com o desconforto de se sentir completamente estrangeira ao tentar se reconhecer na paisagem. Acabara de perder pela primeira vez na vida o aniversário da irmã, não poderia imaginar que isso a afetaria mais do que as tempestades de neve. Mas o inverno já está no fim, a primavera chegando, teremos dias mais bonitos e uma excursão da escola prevista para daqui a alguns dias. Destino: Quebec.

Partindo de Rhode Island o ônibus atravessa o norte dos Estados Unidos, lá fora parece estar cada vez mais frio. Ao cruzar a fronteira com o Canadá, surpresa: ainda tem neve no chão! No entanto, os cinco dias foram mais do que suficiente para derreter a má-impressão inicial da menina. Pela primeira vez em três meses se reconhecia na paisagem: nas pequenas ruas, nas igrejas, nas lojinhas, nos cafés, na música alegre, na gentileza das pessoas, nos termômetros em graus celsios. Então ela pensou secretamente que esse era um cantinho da América do Norte onde ela moraria feliz. O segredo não durou muito, pois de volta ao Brasil alguns meses depois, sempre que a perguntavam o que ela mais gostou dos Estados Unidos ela respondia ironicamente: O Canadá. Quebec.

Durante dez anos ela guardou aquela impressão, mas eventualmente começou a se perguntar se não era um exagero de olhar adolescente aquela imagem linda que tinha de Quebec. Finalmente chegou o dia em que teve a oportunidade de testar a sua memória. Apreensão, frio na barriga, decolagem. A cidade estava lá, ainda mais bonita, animada e encantadora. Desta vez é verão: multidão nas ruas, música ao ar livre, passeio nos parques, bicicletas. E a mesma gentileza, charme e aconchego. Desta vez, ao invés de 5 dias serão 4 semanas. Podem esperar por mais histórias…

All you need is love, love is all you need.

Em homenagem ao dia dos namorados que acabou de passar e ao dia de Santo Antônio que apenas começou, juntei duas histórias que me inspiram a acreditar no amor:

A primeira começa com uma professora de francês em excursão com os alunos em Paris. O namorado resolve acompanhá-la e ajudá-la na organização da excursão. Uma bela noite, o namorado insiste para que passem um tempo sozinhos e a convida para um jantar no restaurante que há no alto da Torre Eiffel. O jantar é interrompido por uma aliança e um romântico pedido de casamento. Muitas lágrimas de felicidade e um “sim” apaixonado. Os turistas nas mesas ao redor começam a perceber o momento especial, em poucos segundos a notícia se espalha. Suspiros e mais lágrimas. Flashes dos mais diversos países disparam. No alto da torre iluminada da cidade mais romântica do mundo, este noivado ficará gravado entre as fotos de viagens de pessoas de todo o mundo. Não é uma comédia romântica de Hollywood, é a história dos meus amigos Carla e Ítalo que se casaram há poucos meses, de quem tive a alegria de ser madrinha.

A outra história é de uma estudante de farmácia que começa a conversar com um farmacêutico turco pela internet. Longas horas de conversa se transformam em uma grande amizade, e quando menos se espera, o cupido dispara uma flecha. Qual é a possibilidade de ficarem juntos, com vidas tão distintas em países tão distantes? Mas qual é a possibilidade de ficarem afastados, com um amor tão grande aproximando-os? Ele vende a farmácia na Turquia, faz as malas e parte para o Brasil, sem falar português, sem perspectiva de trabalho. Ao vê-la no aeroporto, a primeira frase que diz é: você é ainda mais bonita do que eu imaginava. Depois de três semanas eles rasgam a passagem dele de volta à Turquia e começam a organizar os documentos para o casamento. Não é novela de Glória Perez, é a história da minha amiga Mila e do seu marido Seref, hoje juntos há 11 anos e com um lindo bebê.

Outras tantas histórias de amigos e amigas não caberiam nesta crônica. Eu mesma já vivi lindas histórias de amor, e tenho certeza que tem ainda mais história por vir. Quando a gente menos espera, Santo Antônio resolve olhar por nós (mesmo depois de tanta gente colocando o pobre coitado de cabeça pra baixo).

Amigas de café

“Você deve diminuir o café”  foi o conselho que ouvi da médica há alguns dias, enquanto ela descobre o que há de errado com o meu estômago. Desde então vim pensando na minha história com esta bebida, e percebi que ela contém muito mais do que cafeína. Esta história é composta principalmente de grandes amigas.

Toc, toc, toc.Nena, quieres un cafecito?” Era a amiga venezuelana, Jessica, querendo descansar um pouco entre os estudos para uma prova ou outra, precisando falar outra coisa além de francês e química. O café sempre acabava bem antes do assunto, lembrando-nos duramente do trabalho por fazer. Mas neste ponto já estávamos recarregadas de cafeína e descarregadas dos problemas e frustrações do dia.

Na França também tínhamos o nosso grupo brasileiro do café da tarde: Li, Fê e Helena. Entre uma xícara e outra surgiam apelidos para os professores, para os namorados, desabafos, e uma irmandade que estranhamente sobrevive até hoje, mesmo sem café.

Ainda bem que existia o “café granizado” no calor de Barranquilla: raspinha de café com leite congelados, com cobertura de chocolate ou doce de leite. Durante um copo de granizado Yovana e eu elaborávamos os planos mais mirabolantes de volta ao mundo. Jessica alemã era outra fiel companheira do cafezinho. Depois de um dia cansativo de trabalho, descansávamos das aulas e dos alunos com um bom “tinto” colombiano. Um ano depois, em Berlim, nos encontramos novamente para atualizarmos as nossas histórias… em um café, é claro.

A minha mais nova amiga de cafezinho é uma francesinha com quem adoro conversar: Manue me faz perceber que as diferenças culturais ficam tão pequenas numa xícara de café entre duas amigas, que às vezes até me esqueço que ela veio de tão longe.

Mas a minha mãe é, sem dúvida, a minha mais antiga companheira de café. Ela me recebe sempre com o mesmo convite: vamos fazer um cafezinho? A partir daí seguem as nossas atualizações sobre a família, o bairro, o trabalho, os planos; os problemas, os conselhos, as realizações … Como recusar este convite?

Qual é o número da sua rua? E o nome da sua casa?

Estava conversando ontem com uma colega professora sobre algumas experiências de quando estudávamos no exterior, eu na França e ela na Inglaterra. Eu falava que na França geralmente os interfones dos prédios não têm números, e sim o sobrenome da família que mora naquele apartamento. Ela me disse que em muitos lugares da Inglaterra as casas não têm números, elas têm nomes. Isso mesmo, você constrói uma casa, escolhe um nome para ela, escreve em uma placa e pronto. Se você comprar uma casa e não gostar do nome dela é só trocá-lo. E como as pessoas encontram as casas umas das outras sem números? Como o carteiro faz pra chegar até uma casa? Fiz as perguntas, mas imediatamente já sabia a resposta. É claro que as pessoas encontram tudo direitinho, elas já estão acostumadas com esse sistema há séculos.

Lembrei-me de quando eu morei na Colômbia, lá haviam dois tipos de rua, todas numeradas: Calles e Carreras. Uma designava as ruas com sentido norte-sul e a outra as ruas com sentido leste-oeste. Os endereços eram do tipo: Calle 80, Carrera 51, casa número 12. Era como definir um ponto em um plano cartesiano a partir das coordenadas dos eixos x e y. Na aula de português meus alunos me perguntavam como se diz “Calle” em português. Rua, eu respondia. E “Carrera”? É rua também. No Brasil tudo é rua, e elas têm nomes, não números. Eles me olhavam espantados: as pessoas não se perdem?

Voltando à Inglaterra, a minha colega, que é carioca, me disse que se lembrou de lá quando veio morar em Vitória. Para os capixabas não é suficiente dizer o número do prédio, temos que dizer o nome, de que cor ele é, perto de onde… Nesse ponto somos bem parecidos com os ingleses. E se os prédios podem ter nomes, porque não as casas?

A gente cresce achando que é normal rua ter nome, casa ter número, prédio ter número e nome e apartamento ter número; quando em realidade tudo não passa de uma convenção social histórica. Ainda bem que hoje existe google maps, gps e outros recursos pra gente se encontrar. Ou desencontrar?